Uma pergunta simples que pode revelar muito sobre a forma como você tem vivido.

Amor-próprio. A expressão aparece em todo lugar. Em legendas de fotos, em títulos de livros, em frases motivacionais que circulam pelas redes sociais. Virou um conceito tão repetido que corre o risco de perder o que tem de mais essencial: a sua profundidade.

Porque amor-próprio não é uma conquista que se exibe. Não é uma versão de si mesma que você apresenta ao mundo com segurança inabalável. Não é a mulher que nunca duvida, nunca vacila, nunca sente que não é suficiente.

Amor-próprio é muito mais silencioso do que isso. E muito mais exigente.

Ele mora nas escolhas pequenas que você faz quando ninguém está olhando. Na forma como você fala consigo mesma quando erra. No que você tolera. No que você não tolera mais. Na capacidade de sentar com o próprio desconforto sem precisar imediatamente corrigi-lo, preenchê-lo ou escondê-lo.

Então, antes de continuar lendo, vale fazer a pergunta de verdade: onde está o seu amor-próprio agora?

Não o amor-próprio que você gostaria de ter. O que você realmente tem. O que aparece no seu cotidiano, nas suas decisões, na forma como você se trata quando está sozinha.

Essa pergunta pode incomodar. E tudo bem que incomode. O desconforto que ela gera já é uma informação.

A maioria das mulheres aprende sobre amor desde cedo, mas quase sempre aprende a amar para fora. A cuidar, a oferecer, a estar presente para o outro. O amor direcionado para dentro, para si mesma, raramente é ensinado. Quando aparece, muitas vezes vem acompanhado de ressalvas: não exagere, não seja egoísta, pense nos outros também.

E assim cresce uma geração de mulheres que sabem amar profundamente, mas que têm uma relação complicada, distante ou até hostil consigo mesmas.

Você reconhece isso em você?

Talvez apareça na forma de uma voz interna que critica antes de elogiar. Que compara antes de celebrar. Que encontra o erro antes de reconhecer o esforço. Essa voz não é a sua verdade. É uma herança. É o acúmulo de tudo que você ouviu sobre quem você deveria ser e nunca conseguiu ser completamente.

O amor-próprio começa quando você para de tentar caber num molde e começa a habitar quem você realmente é, com tudo que isso inclui.

Mas o que isso significa na prática?

Significa que amor-próprio não é a ausência de insegurança. É a capacidade de continuar mesmo com ela. É saber que você não precisa resolver todas as suas contradições para merecer respeito, cuidado e presença, começando pelo respeito, cuidado e presença que você mesma oferece a si.

Significa que amor-próprio não é achar que você é perfeita. É parar de exigir perfeição como condição para se aceitar. É reconhecer que você é um ser em processo, que está aprendendo, que vai errar, que vai recuar, que vai ter dias em que a versão de si mesma que aparece não é a que você gostaria, e que tudo isso é humano, não é falha de caráter.

Significa que amor-próprio não é nunca precisar de ninguém. É saber o que você precisa e conseguir, ao menos às vezes, pedir. É reconhecer a sua dependência sem se envergonhar dela, porque ser humana é ser interdependente, e isso não diminui ninguém.

Há uma confusão muito comum entre amor-próprio e autoconfiança. As duas coisas são relacionadas, mas não são a mesma coisa. A autoconfiança flutua. Ela sobe quando as coisas vão bem e desce quando as coisas desmoronam. Ela depende de resultados, de validação, de circunstâncias externas.

O amor-próprio, quando genuíno, não flutua da mesma forma. Ele é uma base, não um estado de espírito. É a convicção de que você tem valor independentemente do que está acontecendo ao redor. Independentemente do que alguém pensa de você. Independentemente do que você produziu essa semana ou de quantos erros cometeu.

Você tem valor porque existe. Não porque é útil, não porque agrada, não porque corresponde a expectativas. Apenas porque existe.

Essa é uma ideia simples de enunciar e muito difícil de incorporar. Porque durante anos, para muitas de nós, o valor foi ensinado como algo a ser conquistado, não como algo inerente. Você é boa quando obedece, quando se destaca, quando não dá trabalho, quando é suficientemente bonita, suficientemente inteligente, suficientemente discreta.

Desaprender isso leva tempo. Leva paciência. Leva, muitas vezes, a ajuda de alguém que possa acompanhar esse processo com cuidado.

Mas também leva atenção ao cotidiano. Porque é no cotidiano que o amor-próprio se constrói ou se desfaz, uma escolha de cada vez.

Ele se constrói quando você descansa sem precisar justificar o descanso. Quando você come sem culpa. Quando você diz não e sustenta o não, mesmo sentindo o desconforto de sustentar. Quando você recebe um elogio e respira fundo antes de minimizá-lo. Quando você olha no espelho e, em vez de catalogar os defeitos, simplesmente olha.

Ele se desfaz quando você aceita menos do que merece porque tem medo de pedir mais. Quando você se desculpa por existir. Quando você coloca as suas necessidades em último lugar de forma tão automática que nem percebe mais que está fazendo isso. Quando a sua voz interna é mais cruel do que qualquer pessoa ao seu redor jamais ousaria ser.

Vale perguntar: você falaria com uma amiga da forma como fala consigo mesma?

Se a resposta for não, você já sabe onde o amor-próprio precisa de mais atenção.

Não existe uma chegada. Não existe o dia em que você acorda completamente curada de todas as inseguranças, completamente em paz com tudo que é, completamente imune à opinião alheia. Isso não existe para ninguém, e prometer que existe é uma mentira bonita que não te serve.

O que existe é o caminho. A prática. A escolha de, dia após dia, tratar a si mesma com um pouco mais de gentileza do que ontem. De se dar um pouco mais de crédito. De exigir um pouco menos de perfeição e oferecer um pouco mais de compaixão.

Amor-próprio não é um destino. É uma direção.

E você pode começar a caminhar nessa direção agora, exatamente do lugar onde está, com tudo que carrega, com todas as suas dúvidas e contradições.

Então, de novo: onde está o seu amor-próprio hoje?

Seja qual for a resposta, ela é o ponto de partida.

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